sexta-feira, 4 de maio de 2012



Parem!
Parem o mundo, as mortes,
o tempo, os desencontros!
É nesse peito negro que quero deitar!
É nesse leito que quero dormir!

É esse homem que quero amar!
É com ele que quero dançar. viajar...
É sem ele que não posso ficar!
Então é com ele que quero combinar:

Te dou meu coração
pra você banhar na beira do rio
Vai! E lava, e tira o que mancha ele de cinza
Pra colorir com as cores dos teus beijos

Parem!
Parem o mundo, as mortes,
o tempo, os desencontros!
Me leva no caminho desse amor
que quer passar.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

A beleza do amor que não é dor

Qual a cor do amor? Qual a cor da dor? Qual a cor do amor que não é dor? Como cantar ou escrever o que não se entende, só se sente?

Tudo mais nasce do que morre. Em alguns casos, nasse tudo ao contrário. Mas aqui, agora, falo de algo que precisou de um tempo pra saber como nascer, apesar de ninguém saber como nasceu. É quase como uma planta. Requer cuidados. Precisa de sol, de vento no rosto.

Falo de algo que engrandece, que transborda o peito. Falo de algo que não precisa ser dito pra ser concreto, mas de entrega e alegria. De algo que não dá espaço pras lágrimas.

Falo de ser livre. De ter a liberdade de escolher estar em qualquer lugar com qualquer pessoa, e, mesmo assim, saber com quem você irá ao cinema, com quem vai dormir de noite, com quem vai transar no final de tarde.

Falo de estar onde eu queria. De ser conquistada todo dia. Trocamos a posse pelos beijos, o abandono pelos abraços e a dor pelos sorrisos. Falo da beleza do amor que não é dor.


Poema pra cantar o desejo

Basta um abraço para o arrepio.
Um decote,
um zíper aberto,
a nuca molhada do banho.
Tudo é motivo
pra sentir desejo.

O beijo eterno,
o sexo, o calor,
o peito que abriga
nas noites sem fim.
Tudo é motivo pra sentir desejo.

A mão que passeia pelo corpo
quer que as roupas sumam
e provoca,
pra o olhar dizer
que amor é pouco
pra tanto desejo.


quarta-feira, 21 de março de 2012

O que é cinema?



Final do século XIX. A Revolução Industrial se expande pelo mundo afora, e a burguesia cria um universo cultural como forma de acelerar seu processo de dominação. É no contexto da busca pela captura do movimento que o cinema surge. Mas defini-lo é que é difícil. Talvez até perigoso e autoritário.

Na verdade, toda arte é complicada de se definir porque ela não existe em si, mas precisa ser criada e, assim, leva consigo um mundo de significações. É certo que existe uma intertextualidade, um diálogo entre as artes. O cinema, por sua vez, dentre as sete, é a mais completa porque contém todas as outras.

           Nesse sentido, como podemos dizer se um filme é bom ou ruim? Que critérios se usam? Quem define isso? Quem se “atreve” a tentar explicar a emoção, a magia do cinema? O fato é que, quando dei por mim, o cinema já fazia parte da minha vida há muito tempo, e já perdi a conta de quantas vezes quis ser o personagem de um filme. Ter me escondido no telhado com Chava e seus amigos, para fugir do recrutamento da guerra civil de El Salvador, em Vozes Inocentes; ter a capacidade de transformar o terror de um campo de concentração em um jogo divertido, como fez Guido em A Vida é Bela; ter brincado com O Menino do Pijama Listrado; ser o jornalista de A Caçada, etc. Não são poucos os exemplos. Na lembrança mais bonita que guardo da minha infância o cinema está lá. O primeiro filme que lembro ter visto foi Cinema Paradiso, com meu pai e meu irmão. Logo o filme que conta a história do amor pelo cinema.
            Um pouco como num sonho: o que a gente vê e faz num sonho não é real, mas isso só sabemos depois, quando acordamos. Enquanto dura o sonho, pensamos que é verdade. Essa ilusão de verdade, que se chama impressão de realidade, foi provavelmente a base do grande sucesso do cinema. O cinema dá a impressão de que é a própria vida que vemos na tela, brigas verdadeiras, amores verdadeiros." (BERNADET, Jean-Claude. O que é cinema. São Paulo: Brasiliense, 1985.)

            Deve ser tão difícil definir o cinema porque ele tem uma característica em comum com os sentimentos: quanto mais se vive (ou faz), menos se entende. Ao mesmo tempo, corajosos são os que insistem.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Parabéns, Mafalda!


Hoje a Mafalda completa 50 anos e essa data não poderia passar em branco. Engraçado que quando eu era criança, achava a Penélope Charmosa fútil demais. Não nego que quis ser a Power Ranger rosa, mas não tenho o menor interesse em ser meiga e saber lutar. Já a Barbie, embora elegante e com um namorado lindo, nunca me completou realmente. Mas a Mafalda... Ah, a Mafalda!

Ela odeia sopa, ama os Beatles e sempre esteve a frente do seu tempo. Reflete sobre o sentido da vida, é irônica e quer mais do que simplesmente casar e ter filhos. Quando crescer, a Malfada quer ter muita cultura. E assim sou eu. Só posso sentir pena pelas pessoas que me perguntam se a tatuagem que tenho dela na perna esquerda é a Luluzinha.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Poema pra cantar a saudade


Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
coloriu minhas noites.
Estrelas surgiram no céu
e a solidão noturna
já não dói na minha pele.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me deixou pura.
Não quero o mal de ninguém
e só vejo o que é bonito.
Ele me fez sua branquinha.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me deixou doida.
Doida eu e doido ele,
sozinhos e nus, fazemos
qualquer lugar pegar fogo.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me deixou sozinha.
Choro sua ausência,
venero sua presença
e espero.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me faz sentir sua falta.
A dor é tanta, e ele sabe,
que eu tive que escrever um
poema pra cantar a saudade.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
não me deixa desistir.
Insisto e persisto.
Porque ele é
o que tenho de mais bonito.

Como disse o poeta,
é a coisa mais linda que eu já vi passar.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me ensinou que o amor não tem cor.

sábado, 10 de março de 2012

Ofício


Em breve voltarei a escrever aqui. Na verdade, não sei mais se aqui é mesmo um bom lugar. Talvez eu volte a escrever numa agenda, na que eu comprei pra faculdade, porque assim vou carregá-la pra qualquer lugar e ela vai ter a mínima característica de um diário (como os que eu escrevia quando criança): ela será secreta.

Mas o "em breve" que eu digo é um pouco indeterminado. Porque antes de escrever preciso entender o que se passa comigo, entender toda essa tormenta que se instalou em mim uns meses atrás. Quando eu conseguir administrar tudo o que escrevi em pensamento, nas minhas observações dentro do ônibus, a caminho do supermercado... Aí sim, vou poder me entregar novamente às dores e delícias do ofício.

Quantas vezes eu assassinei o amor?

Quantas vezes eu assassinei o amor?



O amor nunca morre de morte natural. Anaïs Nïn estava certa. Morre porque o matamos ou o deixamos morrer. Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença. Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia. Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.


O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos. Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento. O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida. O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.

Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos. No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.


Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria. Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas. Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.

O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.


O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.

- Fabrício Carpinejar

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Saudade


Saudade de quando você ainda era assim, pequenininha, e eu podia te embalar... Lembro que você sempre foi abusadinha: fora seus pais, só ficava se fosse comigo. Todo mundo ficava feito bobo, esperando os seus primeiros passos, as suas primeiras palavras... Hoje você tá rebelde, não quer mais falar comigo no telefone e me troca pelos meninos da sua rua, só porque eles tem sua idade né? Confesse!

Hoje você só dorme se for com sua mãe, que é pra o "Sucupira" não vir te buscar. Mas e EU? Será possível que eu não posso te proteger de um reles anão que tem os pés virados pra trás?

Mesmo assim, eu me lembro como chorei quando você disse "titia" a primeira vez...

sábado, 5 de novembro de 2011

Dentro de um abraço


Onde é que você gostaria de estar agora, nesse exato momento?

Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, em diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema assistindo à estréia de um filme muito esperado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.

Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.
E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?

Meu palpite: dentro de um abraço.

Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.

Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.

O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz humana nenhuma se faz necessária, está tudo dito.

Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde à beira-mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?

Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo. Mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. ...recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.
 
Trecho do livro Feliz por nada, de Martha Medeiros.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

NAMORE UM BARRIGUDINHO!

Tenho um conselho valioso para dar aqui: se você acabou de conhecer um rapaz, ficou com ele algumas vezes e já está começando a imaginar o dia do seu casamento e o nome dos seus filhos, pare agora e me escute! Na próxima vez que encontrá-lo, tente disfarçadamente descobrir como é sua barriga. Se for musculosa, torneada, estilo "tanquinho", fuja! ... Comece a correr agora e só pare quando estiver a uma distância segura. É fria, vai por mim. Homem bom de verdade precisa, obrigatoriamente, ostentar uma barriguinha de chopp. Se não, não presta. Estou me referindo àqueles que, por não colocarem a beleza física acima de tudo (como fazem os malditos metrossexuais) , acabaram cultivando uma pancinha adorável. Esses, sim, são pra manter por perto. E eu digo por quê. Você nunca verá um homem barrigudinho tirando a camisa dentro de uma boate e dançando como um idiota, em cima do balcão. Se fizer isso, é pra fazer graça pra turma e provavelmente será engraçado, mesmo. 

Já os "tanquinhos" farão isso esperando que todas as mulheres do recinto caiam de amores - e eu tenho dó das que caem. Quando sentam em um boteco, numa tarde de calor, adivinha o que os pançudos pedem pra beber? Cerveja! Ou coca-cola, tudo bem também. Mas você nunca os verá pedindo suco. Ou, pior ainda, um copo com gelo, pra beber a mistura patética de vodka com `clight´ que trouxe de casa. E você não será informada sobre quantas calorias tem no seu copo de cerveja, porque eles não sabem e nem se importam com essa informação. E no quesito comida, os homens com barriguinha também não deixam a desejar. Você nunca irá ouvir um ah, amor, "Quarteirão" é gostoso, mas você podia provar uma "McSalad" com água de coco. Nunca! Esses homens entendem que, se eles não estão em forma perfeita o tempo todo, você também não precisa estar. Mais uma vez, repito: não é pra chegar ao exagero total e mamar leite condensado na lata todo dia! Mas uma gordurinha aqui e ali não matará um relacionamento. 

Se ele souber cozinhar, então, bingo! Encontrou a sorte grande, amiga. Ele vai fazer pra você todas as delícias que sabe, e nunca torcerá o nariz quando você repetir o prato. Pelo contrário, ficará feliz. Outra coisa fundamental: Homens barrigudinhos são confortáveis! Experimente pegar a tábua de passar roupas e deitar em cima dela. Pois essa é a sensação de se deitar no peito de um musculoso besta. Terrível! Gostoso mesmo é se encaixar no ombro de um fofinho, isso que é conforto. E na hora de dormir de conchinha, então? Parece que a barriga se encaixa perfeitamente na nossa lombar, e fica sensacional. Homens com barriga não são metidos, nem prepotentes, nem donos do mundo. Eles sabem conquistar as mulheres por maneiras que excedem a barreira do físico. E eles aprenderam a conversar,a ser bem humorados, a usar o olhar e o sorriso pra conquistar. É por isso que eu digo que homens com barriguinha sabem fazer uma mulher feliz. 

CHEGA DE VIADAGEM! O mundo inteiro sabe que quem gosta de homem bonito são os viados. Mulher quer homem inteligente, carinhoso e boa praça. Chega de ter a consciência pesada após beber aquela cervejinha, ou aquele vinho, e comer aqueles petiscos. Chegou a sua vez!! Salada, é o caralho!! Passe a diante para todos os barrigudos e simpatizantes!! P.S.: E mandamos um recado para você "sarado gostosão": Enquanto você malha, sua namorada está tomando cerveja num motel, com um barrigudinho. =)



(CARLA MOURA
PSICÓLOGA, ESPECIALISTA EM SEXOLOGIA)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Outro tipo de mulher nua

Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje, em ver uma mulher se despir de verdade - emocionalmente. Nudez pode ter um significado diferente. Muito mais intenso é assistir a uma mulher desabotoar suas fantasias, suas dores, sua história. É erótico ver uma mulher que sorri, que chora, que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer um maluco sendo inteligente. Uma mulher que diz o que pensa, o que sente e o que pretende, sem meias-verdades, sem esconder seus pequenos defeitos - aliás, deveríamos nos orgulhar de nossas falhas, é o que nos torna humanas, e não bonecas de porcelana. Arrebatador é assistir ao desnudamento de uma mulher em quem sempre se poderá confiar, mesmo que vire ex, mesmo que saiba demais.

Não é fácil tirar a roupa e ficar pendurada numa banca de jornal mas, difícil por difícil, também é complicado abrir mão de pudores verbais, expôr nossos segredos e insanidades, revelar nosso interior. Mas é o que devemos continuar fazendo. Despir nossa alma e mostrar pra valer quem somos, o que trazemos por dentro. Não conheço strip-tease mais sedutor.

Martha Medeiros

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Escrever para Fernanda Young

É fácil se conformar em não saber pintar, tocar piano, dançar.
Mas escrever deveria ser um sentido humano,
como a visão, audição e os outros todos.
Eu, por exemplo, trocaria minha audição pelo dom da escrita sem pestanejar.
Imagina que glória suprema: conseguir esclarecer os sentimentos e ainda deixá-los escritos.
Não sei bem por quê,
mas eu sempre achei que as coisas escritas são mais eternas
que qualquer outra forma de arquivar, guardar, registrar, mais que a fotografia.



F.Y

sábado, 9 de julho de 2011

Ao ébano (3)


Hoje, depois de você me fazer a mulher mais feliz do mundo, só me resta uma coisa a te dizer: eu sempre acreditei em nós. E eu luto por aquilo que acredito.

09.07.2011 ♥

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Porque era noite de São João

"Olha pro céu, meu amor. Vê como ele está lindo! Olha praquele balão multicor, como no céu vai sumindo..."


Hoje seria um dia daqueles em que você acorda cedo porque quer, não porque precisa. E ainda ri do fato. Hoje seria o dia de afastarmos os sofás pros cantos, que é pra sobrar mais espaço pra dançar na sala. Dia de desempoeirar tanto a vitrola quanto os discos, que é pra Luiz Gonzaga poder cantar sem engasgar, certo? O almoço ficaria por conta da minha mãe. Mas minha avó de vez em quando daria uma carreira na cozinha pra ver em que estado a comida estava. Que tal mungunzá com charque? Bianquinha adorava!


Tudo encaminhado, minha vó voltaria pra sala e trataria logo de arrastar o chinelo com meu avô, e mesmo que acabassem cochilando, não parariam de dançar. Hoje era dia de Bianquinha calçar as sandálias da mãe, mesmo que fossem modelos diferentes, passar um batom vermelho, mesmo que ficasse borrado, e colocasse o chapéu de palha do seu avô, aquele que ele usava pra se proteger do sol quando ia ao mercado. E para seu par, acabava por sobrar somente o gatinho Mimi, o gigante amarelo.


Assim o dia corria inteiro, com pequenas pausas para comer um milho cozido ou canjica com canela, até entrar a noitinha. E Luiz Gonzaga lá tocando, voínha só trocava os discos. O jantar poderia ser cuzcuz com leite e carne de sol, porque tinha que ser algo que Bianquinha gostasse. Terminado o jantar, eu correria para a calçada com meu irmão para soltar os fogos, já que era um dos poucos momentos em que ficávamos juntos sem brigar por muito tempo. Poderíamos começar  pelos chumbinhos ou as chuvinhas. Depois, talvez, ele conseguisse me encorajar a soltar um traque...

Poderia, quem sabe, até pular elástico hoje (já que eu era imbatível no bairro), mas o que eu queria mesmo era pular a fogueira, igual meu irmão fazia. Mas como minha vó ficava me pastorando do portão, o que restava era pular as brasas...


Então minha vó diria a frase mais temida da noite: "Vamos brincar de brasa? Cada cá nas suas casa!". Eu, obediente, passaria logo pra dentro. Mas antes de entrar, olharia uma última vez pro céu. O São João pedia uma estrela cadente, e lá estava ela, passando bem no correr dos meus olhinhos de criança que só pediriam uma coisa naquela noite: que ela não acabasse.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pesos, sensações e medidas

Me sinto leve como a brisa. Ao mesmo tempo, pesada como a primeira carga que se dá no celular recém comprado. E efêmera como o níquel ao se dissolver na água.

Me sinto incompleta, carta fora do baralho, caneta que falha, música que não toca mais. Nasço e morro dia após dia. O sol me chama pra sair e a lua pra eu refletir. O sol me põe em movimento, a lua me recolhe. Nasço e morro todos os dias apartir de sentimentos que me brotam ao coração como algo natural. Sou um aglomerado de sensações. Um vulcão prestes a entrar em erupção. Um copo que esborrota a gota d'água.


Já me renovei em braços, me afoguei em beijos, me perdi em corpos e naveguei em olhares. Mas não adiantou. Algo ainda me falta. Sou como um brinquedo pra montar. No entanto, as outras peças não se encaixam. Nenhuma sequer, nenhuma pra contar a história.


Hoje eu não pegaria ônibus nem filas. Dormiria um pouco mais, dançaria com as palavras, abraçaria mais as pessoas e plantaria flores em seus corações, cuidaria de uma criança, alimentaria um faminto, adotaria um cão sem dono, me renovaria nos seus braços, me afogaria nos seus beijos, navegaria em seus olhos, me perderia em seu corpo, faria seu café, desenharia sua barba me causando arrepios desejáveis, vestiria meu vestido mais bonito, tatuaria uma borboleta, acenderia uma vela e cantaria Um girassol da cor de seu cabelo. Mas falta você em mim. E muito pra mim é tão pouco, e pouco eu não quero mais.

domingo, 29 de maio de 2011

Ao ébano (2)


"Yo no te pido que me bajes
una estrella azul
sólo te pido que mi espacio
llenes con tu luz."
(Pablo Milanés)

Ouvir Pablo Milanés é lembrar de você e, acredite, não é pelo nome. É bom que estejamos perto, mesmo que ao mesmo tempo estejamos longe, mas isso só nós dois entedemos. Meu sorriso é seu sem nenhum esforço.

E sempre com reticências... 

domingo, 8 de maio de 2011

Poeminha sentimental

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mário Quintana


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sobre o amor proletário


Amor Proletário - óleo sob tela
Marcos Pavón Estrada - artista cubano

"Também outra mulher suspirava de amor nesses dias agitados de São Paulo à espera da visita do ditador. Era a operária Mariana e também para ela a palavra amor tem um significado. Diverso daquele de Marieta, diferente do de Manuela. O amor para ela não quer dizer nem egoísmo, nem ávido desejo imperativo. Seu amor contém admiração e amizade, ela pensa em João como esposo e amante, antes de tudo, como companheiro, seu companheiro de cada dia. Seu amor é infinitamente mais complexo que o de Manuela, infinitamente mais profundo que o de Marieta. Sua grandeza está muito além dos limites do leito sonhado por Marieta, do casamento pelo qual anseia Manuela, seu amor abarca as fronteiras de todos os sentimentos, é a vida em toda a sua plenitude, e para ela significa ardente alegria, segura confiança, seu amor a ilumina e dá-lhe forças. Não lhe traz esse amor, nem por um instante sequer, nenhum sofrimento, não lhe causa nenhuma dor, não a faz ter medo, nem chorar, nem desesperar-se, não a faz menor como a Marieta, nem envergonhada como a Manuela. Seu amor lhe dá novas forças para suas árduas tarefas, seu amor a faz melhor a cada manhã, povoa-lhe de sonhos belos as noites fatigadas, as poucas horas de dormir."

Os ásperos tempos
Os subterrâneos da liberdade
Jorge Amado

sábado, 23 de abril de 2011

Entre olhares


"Seus olhos [...] se demoravam no rapaz
e ela não sabia como conter o fogo do seu olhar,
como conter sua voz apaixonada,
como não cair em seus braços,
como não lhe contar..."

Os subterrâneos da liberdade.
Jorge Amado.