quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Venha, que o que vem é perfeição

Agora a noite, recolho-me ao quarto para escrever, para tentar resumir o quão bem você tem me feito, e, consequentemente, te sentir mais perto. Você não precisa estar longe pra que eu sinta saudade: feche o portão ou me deixe no ponto de ônibus e a ânsia de que não volte tomará conta de mim.

Como artista que é, assim como disse seu amigo, você tem a alma de luz. Faz com que as músicas que me fala sobre entrem em compasso com o descobrir das coisas que temos em comum. Somos tão opostos e tão parecidos que nossa diferença de idade é apenas um detalhe... Eu te ponho em algumas enrascadas e você, usando a experiência do que já viveu, tenta me ensinar a ter o freios que a vida exige, e se preocupa pra que eu não perca o que me espera.

Tua simplicidade faz com que até teus defeitos sejam perfeitos. Não consigo me incomodar por você sempre deixar a tampa do vaso sanitário levantada, ou entender porque sempre esquece de ligar a luz para escovar os dentes. Quero continuar dividindo as tarefas contigo, por mais que você saiba que a louça deve ser minha (e mesmo assim lave), já que cozinhou.


Me parece que te ter nunca é o bastante, mas, quando você se cansa, me contento em te ver dormindo, já que tem você em mim inteira. Então, ficamos assim: nós, nosso colchão e as poucas estrelas que vemos por trás da árvore.


Quero, portanto, que você me carregue na sua bolsa feita de material reciclado e que, se for pra se atrasar, que se atrase quando for me deixar.

Com beijos preguiçosos,
Bianca Dantas.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Ao ébano


Por enquanto, nada tenho a dizer a não ser o simples e sincero obrigada pela noite ilustrada. O relembrar da infância ao assistir Cinema Paradiso, a batata recheada de frango e carne moída, a volta do Madrugão sem ouvir piadinhas sem graça dos que ali rodeiam, as boas músicas que não foram cantadas, o observar a cidade da janela lateral do meu quarto de dormir, o vinho, o sono, o descanso, o frio, o calor, o café da manhã... E não te esqueças que ainda me deves O mundo é um moinho, de Cartola. E, como diria Humberto Gessinger, "o teu maior defeito talvez seja a perfeição, tuas virtudes talvez não tenham solução".

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Conversa de bar


Ele: - Que cara é essa?
Eu:
(Cara de quem quer você, mas tem vergonha demais pra te dizer isso.)
-
Cara de quem tem prova amanhã.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Alívio imediato

"Que a chuva caia como uma luva, um dilúvio, um delírio. Que a chuva traga alívio imediato!".


Assim canta Humberto Gessinger, numa das minhas músicas preferidas de Engenheiros do Hawaii. O clima de Campina me intriga: às vezes muito quente, às vezes muito frio e por aí vai. Agora de tarde, certamente para combinar com meu estado de espírito, está nublado, quase que chovendo... Tal alívio imediato, tem sido o meu pequeno objetivo a ser alcançado há alguns dias...

Sei que quando fazemos algo, devemos fazer por convicção e não por obrigação. Desse modo, as promessas "eternas" que fiz hoje parecem não falsas, porque isso não faz parte de mim, mas sem sentido, sem nexo, sem o elo principal que me unia a elas: a disposição.

Lá fora, a cidade ferve. As pessoas estudam, trabalham, amam, odeiam e correm pra cima e pra baixo. Não sou diferente, mas quero tudo mais calmo agora... Quero andar sem preocupações e sem agonias. Gessinger, mais uma vez, me cantando mesmo de tão longe, diz: "Há um muro de Berlim dentro de mim". De passo em passo, pausadamente, vou ficando por aqui, tentando chegar lá e desejando que chova... E cá estou eu, parada, ensaiando mentalmente a dança da chuva para que alcance o meu alívio imediato.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Daqui pro mundo


Parece que foi ontem: lá estava eu, na cerimônia da escola onde os aprovados são apresentados como exemplos para os então concluintes. Dias depois, chorava a despedida de um namorado que hoje nem existe mais. Arrumava as malas que continham não só roupas, mas muitos espaços vazios que seriam preenchidos só após chegar em terra firme.

Geralmente desprezamos os ensinamentos dos pais, provavelmente porque achamos que sempre vamos tê-los por perto, pra que resolvam tudo para nós. Mas, ao chegar em Campina, vi que tudo, de fato, fazia sentido: devo ter cuidado ao atravessar a rua, não falar com estranhos, me alimentar bem e não deixar que ninguém pegue carona em mim nos trabalhos da faculdade. Morar com família nem sempre é bom, mas morar com gente que você não conhece é pior ainda. Com certeza, é melhor ouvir sua tia gritando pra que você acorde, do que se descobrir que você deu suas "pérolas aos porcos".

Sempre quis morar em João Pessoa, desde menina. A filha-neta-sobrinha prodígio iria morar na capital. Mas, a química e a física me impediram. Hoje, agradeço a elas. Moro, diria eu, numa cidade maravilhosa, assim como o Rio de Janeiro. Violenta sim, mas cheia de felicidades pra me proporcionar. Aqui, não só conheci pessoas maravilhosas, como ampliei em mil vezes os meus conhecimentos em relação à tudo. Principalmente, à cultura.

Campina Grande é e respira cultura. Entretanto, ainda precisa de muito apoio pra que, esse que é um dos fatores mais importantes na libertação de um povo, se desenvolva. Cada final de semana que vou em Patos, entre uma discussão e outra, posso dizer a meu pai que Campina tem sido minha melhor professora depois dele. Entrevistar Lourdes Ramalho, ou Dona Lourdes - como chamo uma das maiores teatrólogas brasileiras - foi, até então, a melhor experiência da minha pequena vida profissional.

Ainda sobre os ensinamentos, é sempre bom lembrar de andar com um casaco na bolsa. Cerveja é sempre uma boa companhia, mesmo quando se está gripada. Diferentemente de Patos, aqui não posso sair a hora que eu quiser, muito menos chegar quando bem entender. Só devo sair se tiver alguém que me acompanhe até em casa, principalmente de noite, o que é um dos principais motivos para que eu saia tão pouco. Antes de dormir, devo trancar bem as portas e as janelas, que é pra evitar um resfriado ou algum elemento inoportuno tentando me assaltar pela quarta vez.

Esses dias ouvi minha tia, a que morou aqui mais de 10 anos e que vive viajando por aí, dizer: "Bianca, querida, você já tem sérios indícios de quem sai de casa pra não voltar mais, assim como eu". Pois bem, ela deve ter razão. Quando olho "da janela lateral do quarto de dormir" para os prédios que me cercam e estrelas que me olham, até incoscientemente canto: "Aqui é meu lugar, eu quero te dizer: Campina Grande, eu adoro amar você!".

Assim, só tenho a agradecer à essa cidade que preencheu vários espaços vazios das malas que trouxe do sertão, sejam eles em forma de pessoas e/ou momentos inesquecíveis. Diante disso, como diria um poeta chato e pernambucano, vim "embora - pra cá - sacudir da vida um beijo sem pensar no que será".

Bianca Dantas é natural de Patos
e apaixonada por Campina Grande.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"Quando acabar a maluca sou eu..."

Há mais de um mês me sinto estranha. No começo, eu não sabia o que sentia. Angústia, agonia... Não sei, talvez também um soluço engasgado. Agora, ao que parece, no final dessa história toda, eu sinto tudo isso junto, acompanhado de um choro que não sai, incerto... Que não sabe se é de tristeza ou de raiva.

Interessante como algumas pessoas são estudiosas. Me impressiona a capacidade que esses "nerd's" tem em aprender tudo que lhes é ensinado. Desde as primeiras aulas, meus professores, direta ou indiretamente, dizem à minha turma (e consequentemente devem dizer às outras turmas também) que devemos nos esforçar pra nunca reprovar, concluir o curso logo e entrar no mercado de trabalho. Mas aí é que vem a parte cruel da coisa: chegando lá, você vai ter que fazer exatamente o que seu patrão quiser, mesmo que para isso você tenha que esquecer todas aquelas "baboseiras" de jovem, toda a sua ideologia de relatar o fato como ele acontece. Em outras palavras, que você vai ter que inclusive manipular a notícia. Como assim? Eu estudei Jornalismo pra denunciar o que há de errado e levar ao povo a realidade que de fato ele vive. Estou fadada a não cumprir meu ofício de jornalista como julgo certo porque tenho que obedecer meu patrão? Ok, então peço demissão.

Pois bem, algumas pessoas aprenderam isso tão bem que não só o fazem na faculdade, como decidem levá-lo como lema de sua vida. Mas vejam que maravilha: eu posso colher uma informação, manipulá-la e, com isso, colocar duas pessoas uma contra a outra. Assim, não só acabo com uma boa amizade, como uso tal fim a meu favor. Ok, peço demissão de novo.

O que mais me magoa nessa história é ver pessoas que gosto e admiro não acreditando em mim. E não só isso, dando razão a quem conheceram há poucos meses e mantém contato praticamente por MSN. Tudo bem, eu entendo: é bem mais fácil acreditar na primeira versão que a gente ouve do que na versão da pessoa supostamente culpada. Principalmente quando essa pessoa tem frescura com comida, é mimada e patricinha, né? Sem problemas, "quando acabar a maluca sou eu" (mesmo). E querem saber do mais? Eu até gosto do samba do Seu Jorge. Agora deixem ele cantar minha música:

Vai no cabeleireiro
No esteticista
Malha o dia inteiro
Pinta de artista

Saca dinheiro
Vai de motorista
Com seu carro esporte
Vai zoar na pista

Final de semana
Na casa de praia
Só gastando grana
Na maior gandaia

Vai pra balada
Dança bate estaca
Com a sua tribo
Até de madrugada

Burguesinha, burguesinha
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha
Só no filé

Burguesinha, burguesinha
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha
Tem o que quer

Burguesinha, burguesinha
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha
Do croissant

Burguesinha, burguesinha
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha
Suquinho de maçã

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Agonias e anseios

Você não devia me olhar assim, como tem me olhado ultimamente. Não devia ter um sorriso tão bonito, nem ser tão inteligente. Você não podia ficar estranho quando tira o óculos, nem ter unhas tão bem feitas. Muito menos ter um jeito único de mexer as mãos. Você não devia ser tão misterioso.


Eu não devia me sentir tão vigiada, envergonhada, e quase que despida quando você me olha assim, como tem me olhado ultimamente. Eu não podia me embriagar no seu sorriso, e muito menos me sentir tão envolvida pela sua inteligência. Eu não devia querer limpar o seu óculos, nem desejar ter unhas iguais às suas. Eu não devia desejar tanto ser tocada pelas tuas mãos, essas que têm forma e espessura únicas. Eu não devia querer, por um segundo, abandonar a faculdade para me tornar perita, só para desvendar esse mistério que é você.


A razão ou o coração: o que deve prevalecer? A resposta não sei, deixo-a para os filósofos. Entretanto, no seu caso, às vezes o coração tenta se sobressair, mas logo vem a razão e reprime-o. Mesmo assim, quem me garante que essa razão repressora está certa? Pois é, talvez seja melhor não pensar nisso e deixar essa e outras respostas também para os filósofos. São tantas perguntas... Tantas respostas que não consigo encontrar... Você, que é tão inteligente, poderia me ajudar se não tivesse me afastado tanto de você...

Seria bom se você viesse, eu ficaria feliz. Se você vem ou não, pouco importa. O que eu sei é que me basta um mínimo sinal da tua chegada para que tudo mude. Eu passo a acordar no meio da noite e perder o sono pensando em você. As plantas balançam de outra forma, quase que dançando. Até o vento me toca diferente. Se está frio, quero ter você aqui para dormirmos juntos. Na verdade, eu não ia dormir. Ia esperar pra ver você dormir. Depois, eu iria pegar sua camisa verde, aquela que eu cheirei escondida, pra repetir a dose, talvez (quem sabe?)...

"Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração..." (Saint Exupéry)





quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Pequena releitura do filme Casa de Areia


Áurea sempre foi muito sozinha, apesar de ter uma família consideravelmente grande. Ela sabia que o mundo é uma multidão. De cores, raças, culturas e personalidades. Entretanto, depois de perder alguém importante, tudo ficou vazio. O mundo continuava sendo multidão, mas, para ela, isso não fazia sentido. Antes, quando andava pelas ruas, as pessoas esbarravam nela, e, às vezes, até pisava em chicletes. Depois, ao caminhar, o máximo que ela sentia era uma brisa leve tocando seus ombros. E o asfalto? Ah, esse tinha se transformado em nada mais que milhões de grãos de areia.

Foram dois anos vivendo num mundo cinza, só dela e de suas lembranças e fantasmas. Áurea, no entanto, queria um mundo cheio de vida de novo. Em busca de cores, resolveu procurar as pessoas, aquelas que faziam a multidão há dois anos. Afinal, ela sabia que não era a última dos seres humanos. Até porque, se fosse, os ET's já estariam disputando-a para usá-la como cobaia de experiências.

Eis que, de repente, algo muda. Áurea volta a ver as pessoas. Melhor: ela não só vê, como passa a sentir a dor delas quando os outros esbarram nas mesmas. Céus!, como aquilo era doloroso e gratificante... Quase como uma obrigação, um dever. E, na areia, ela voltou a deixar pegadas com seus passos. Já os grãos, quase sem cor, agora tinham as cores do futuro: vermelho e amarelo.

De volta às ruas, Áurea conheceu boas pessoas. Dentre elas, está Massu: poeta, escritor e pintor que utiliza as cores do futuro em suas obras. Para que ela chegue onde ele mora, tem que andar um bom pedaço de terra. No meio do caminho não tinha uma pedra, tinha um baú entreaberto. Curiosa, Áurea observa o tesouro encontrado. Eram escritos de Massu, e ela, por estar aprendendo a ser discreta, não diz a ele que achou. Ela não diz que achou, muito menos que leu... E leu ferozmente.

Áurea, em vez de ir para a casa de Massu, volta para o seu apartamento. Radiante, junta todos os papéis antigos, escreve textos novos, organiza-os e pronto: agora ela também tem um tesouro. A vontade dela é correr para os braços de Massu, levando consigo o tesouro que ela construiu, estando ele, assim, em várias dessas entrelinhas. Áurea queria mesmo era escrever sobre todo esse mistério que é Massu e o que sente por ele, mas tem medo que ele se encontre nos seus textos, assim como ela, às vezes, se acha presente em toda aquela poesia efêmera e nostálgica.

Áurea é, acima de tudo, uma sonhadora. Mas ela tem aprendido a sonhar de acordo com a realidade. Só que a realidade diz diariamente que ela não é bonita o suficiente para ser uma das musas de Massu, além de ser infantil e dramática. Áurea tem dois desejos: ver Massu dormindo e, quando do seu acordar, beijá-lo até que sinta o mel que ele aparenta guardar na boca. Diante de tal real impossibilidade, ela vai até a metade do caminho e pára. Abre seu tesouro, retira todos os seus textos e, antes que quisesse esvaziar por completo o baú, deixa o seguinte bilhete torcendo para que Massu encontre qualquer dia:

"Você é bem mais bonito do que eu lembrava."

sábado, 6 de novembro de 2010

À quem já se foi e permanece

- Vó, cheguei!

- Oi, minha fia. Chegue cá pra vó dar um xêro que vó tava com saudade!

- Ô, vó. Eu também tava com saudade. Ô xêro bom!

Ambas sorriem.

- Menina, e esses olhos brancos, sem sangue nenhum? Passe já pra cozinha tomar caldo de feijão!

Quatro anos. Quem diria que passaria tão rápido... Nos primeiros dias não consegui dormir. Hoje vou dormir torcendo pra sonhar com a senhora. Eita, que o mundo tá precisando daquela mulher de fibra, destemida e carinhosa que era a senhora. A família, depois de sua morte, se separou. Cada um foi pro seu lado, literalmente. No domingo não fazem mais almoços de família, nem vão juntos para a missa da tarde, aquela que era às 16h.

Aquele 25 de novembro foi o dia mais doloroso da minha vida. Meu mundo começou caindo. Tudo perdeu sua cor. Eu precisava ser forte. Mas como ser forte se quem me dava forças eu nunca mais veria? Fui levando a vida, assim, meio sem rumo nem alegria, levando pra ver no que ia dar.

Tanta coisa aconteceu... A senhora nem sabe! Desde que se foi, tenho tentado viver lembrando seus ensinamentos, mesmo que quase nunca os faça. Aqueles sobre o coração, esses sim é que não cumpro. Mas é como a senhora mesmo dizia: “A gente só aprende errando e fazendo de novo”. Ai, como eu queria que estivesse aqui pra poder contar tudo... Já dei meu primeiro beijo, tive meu primeiro amor, minha primeira vez e meu primeiro namorado. Todos quatro bem diferentes um do outro, mas nenhum que tenha me marcado tanto, a não ser o primeiro amor. Dos outros nada ficou. Desse quase tudo. A senhora ia gostar muito de conhecê-lo. Ele é engraçado, inteligente e fez nascer uma Flor de Lótus no meu coração...

Tenho passado por maus bocados desde a sua morte. Em contra partida, em 2008 encontrei pessoas maravilhosas que me ajudam a enfrentar e superar os obstáculos que me aparecem. Eles e elas são a família que eu escolhi, e desde lá, deixei de levar minha vida assim, meio sem rumo nem alegria, levando pra ver no que ia dar. Agora eu sei exatamente onde eu quero que ela chegue. E por saber, o farei. A vida que escolhi, vó, é cheia de sacrifícios. Mas é a que eu quero pra mim. Creio que, na sua essência, a senhora ia gostar do que faço e das pessoas que me acompanham. Só ia torcer a cara por eu estar viajando tanto, né? Imaginei... Outra notícia boa é que eu e mainha agora somos amigas de novo. Ninguém sabe como me dói saber que a senhora morreu sem ver isso acontecer... Uma ajuda a outra no que pode e que não pode. Além disso, sua neta está na faculdade agora, como a senhora sempre sonhou. Sua neta vai ser jornalista!

Há outra coisa que preciso dizer, mesmo sabendo que ficaria chateada. Deixei de ir à igreja. Não canto mais no coral da missa das crianças, e nem rezo mais. Não acredito em Deus, muito menos em vida eterna. Só acredito na força do homem. Terça passada foi Dia de Finados. Não pude ir ao cemitério porque tive que viajar cedo pra Campina.

- Filha, quando você chegar em casa, reze por sua vó, pra que ela tenha a vida eterna.

- Mas eu não acredito em vida eterna.

- Você não acredita, mas ela acreditava. Se não for fazer por você, faça por ela. Ela iria gostar.

Pois bem, antes de dormir acendi duas velas pra tentar compensar a visita que não fiz. Tentei rezar, mas me perdi entre as preces. Todos choram nesse dia, mas eu não chorei. Tive um ótimo dia. Ri bastante e assisti várias comédias brasileiras com Thatá (a menina que mora comigo e que, com certeza, a senhora ia querer bem como outra neta).

Bom, vou ficando por aqui. Ouvindo Luiz Gonzaga pra lembrar de como a senhora dançava bem.Vivendo, sentindo o sangue correr nas veias, correndo pra mudar o mundo e morrendo de saudades.

domingo, 31 de outubro de 2010

Cartas que eu não mando - I


Patos, 31 de outubro de 2010.

Oi, meu bem. Como vai esse menino de sorriso gigante? Quantas saudades suas, viu rapaz?! Te escrevo hoje pra te contar algumas coisas, dar boas risadas, relembrar o que vivemos, enfim. Escrevo pra você. Estou em Patos desde sexta, sabe? Aqui tá tudo tão parado... Quer dizer, as ruas estão cheias de gente e música alta, mas nada que me interesse ao ponto de sair de casa. Até que ontem eu saí... Fui reencontrar os meninos no Coreto. No caminho de lá, passei de frente ao seu apartamento. Sua mãe estava lá, linda como sempre, rodeada de amigos na varanda do seu quarto. Me deu mais saudades ainda, acredita?

De repente eu lembrei de quando nossas aulas acabavam mais cedo e ficávamos na sua casa, você conversando com os outros e eu rindo do que tem colado na sua porta. De quando a gente tentava estudar... Nossa! E você tentando me ensinar o pouco que sabia de física? Só tendo muita coragem mesmo... Ah, mas e no dia que a gente foi assistir o Exorcista? Coitada de mim que acreditei que você não me daria um susto. E coitada mesmo, porque eu quase morria! Você, sempre sem graça e idiota, me arrancando sorrisos sem nenhum esforço. Pois é, meu bem, a saudade é inevitável. E as lembranças me servem pra diminuir a distância que há entre nós, física e sentimental. Servem também pra que eu torne a imaginar um novo desfecho para essa nossa história sem fim se, de repente, ambos tivessem errado menos...

(Meu bem, é impossível te escrever sem falar em Engenheiros do Hawaii, né? Mas é que é algo mágico, entende? É como se eu pudesse me teletransportar pro nosso passado... Negar o meu amor por você, negar nossa história, negar tudo... até o que não vivemos. Às vezes me imagino cantando nossas músicas pra você... Quem sabe você não começasse a cantar igual aquela pausa, ano passado, enquanto fazíamos as tarefas atrasadas?)

22:30. Meu pai me ligou dizendo pra eu ir pra casa. Mesmo assim, não resisti e fui no seu prédio. Chamei no interfone e nada, talvez sua mãe não tenha ouvido ou o aparelho esteja com problema. Já prestes a ir embora, o porteiro chegou e antes que eu perguntasse algo, disse: "Ele não está aí.", sugerindo gentilmente que eu me retirasse dali. Não sabe ele que só queria contar uma coisa: vou voltar a escrever seu livro, aquele que conta nossa história, o Aritmética II que possivelmente mudará de nome.

Pra você, o de sempre: beijos e saudades que andam de mãos dadas.

Carinhosamente,

Bianca Dantas.

sábado, 30 de outubro de 2010

De João Pessoa maravilha pra mim!

Quinta-feira foi um ótimo dia. Em João Pessoa reencontrei bons amigos, alguns de longa data e outros de uma menor, mas que são de sorrisos e luta, assim como eu. E, só por serem assim, já são especiais. Foi um bom dia também para fotografar. Mas o melhor mesmo foi poder firmado o meu compromisso na luta pelo socialismo. Porque, como já disse, só assim eu sou. Agora, em seguida, poesia de Thiago de Mello com uma das fotos minhas tiradas na UFPB.

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

E você, tem fome de quê?

A fome sempre foi um assunto de interesse de todos, desde os governantes até a sociedade civil. Por isso, a proposta de sua erradicação se faz presente na maioria dos guias eleitorais, tendo o programa Bolsa Família como centro das atenções.

Entretanto, há uma questão bem maior por trás disso tudo: será mesmo só alimentícia a fome que a população tem? A educação, o lazer e a cultura, onde ficam? De fato, vivemos numa sociedade que embrutece as pessoas, impondo-as a cultura de massa onde, por exemplo, as músicas vulgarizam a mulher e incentivam o machismo e o uso de drogas lícitas. As novelas também não fogem de tal padrão, porque além disso mostram uma realidade que não condiz com a vivida por quem mora numa periferia.

É diante desse cenário que o povo vê negado seu direito garantido na Constituição de acesso à cultura. Por outro lado, podemos perceber que, mesmo sem incentivo governamental, várias artistas, em especial na região Nordeste, não desistem e continuam a produzir. São cordéis, grupos de teatro e dança, cinema, etc, criados principalmente para libertar o povo da alienação a qual é submetido. E você, tem fome de quê?


Bianca Dantas é estudante de Comunicação Social - UEPB.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre o amor

Quem não compreende o silêncio ainda não está pronto para ser flor.


Rita Apoena

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sobre os poetas


O mágico nunca conta os seus segredos.
O poeta nunca explica uma entrelinha.

Rita Apoena

Sobre o arrepio

O arrepio é quando,
por serem tão leves,
seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros:
soerguer uma flor.


Rita Apoena

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Aos que não nos exergam

Oi, eu estou bem aqui na sua frente, mas você insiste em não me ver. Tudo bem, opção sua, cada um enxerga o que quer. O problema é quando você, sem ter idéia de como sou, resolve dar a sua visão sobre mim. Talvez você não se enxergue também, antes de mais nada – e assim me tire por parecida contigo. Errando completamente. Para começar, eu faço questão de ver as pessoas ao meu redor, e isso faz toda a diferença do mundo. Percebo que todos têm algo de especial, estando aí a graça. Percebo belezas que não são minhas, estando aí o prazer.

Percebo inclusive você, parado bem na minha frente, desviando seu olhar para lá e para cá, nervoso com a minha presença, estando aí o ridículo.

Veja bem, não há o que temer em mim. Não quero nada que seja seu. E não sou nada que você também não seja, pelo menos um pouquinho.

Você não precisa gostar de mim para me enxergar, mas precisa me enxergar para não gostar de mim. Ou gostar, e talvez seja exatamente isso que você tema. Embora isso não faça sentido, já que a vida é bela, justamente, quando estamos diante daquilo que gostamos, certo?

Não vou dizer que não me irrita essa sua cegueira específica com relação a mim, pois faço de tudo para ser entendida. Por todos. Sempre esforço-me ao máximo para que isso ocorra, aliás; então, a sua total ignorância a meu respeito, após todo esse tempo, nós dois tão perto, mexe, sim, levemente, com a minha paciência.

Se for essa a sua intenção, porém, mexer com a minha paciência, aviso que anda perdendo sua energia em besteira, pois um mosquito zumbindo em meu ouvido tem um efeito semelhante. E, se me dou ao trabalho de escrever esta carta para você, é porque sei que você também não será capaz de enxergar o que há nela.

Explicando melhor: preferiria que você me esquecesse, mas até para poder esquecer você vai ter que me enxergar. Enquanto não me olhar de frente, ao menos uma vez, ao menos por um segundo, vai continuar assim, para sempre, fugindo sistematicamente da minha imagem – um escravo de mim, em fuga constante, portanto.

Pode abrir os olhos, vai ver que não sou um bicho-de-sete-cabeças. Sou bem diferente de você, como já disse, mas isso é ótimo. Sou melhor que você em algumas coisas, pior que você em outras – acontece. No que eu for pior, pode virar para outro lado; no que eu for melhor, cogite me admirar. “Olhos nos olhos, quero ver o que você faz...”* Sempre quis cantar isso para alguém. “Olhos nos olhos, quero ver o que você diz...”*

Pronto, um sonho realizado. Já estou lucrando com a nossa relação, só falta você. Basta ver o que eu posso lhe mostrar e enxergar o que eu posso ser para você.




* Trechos da música OLHOS NOS OLHOS, de Chico Buarque.

Fernanda Young

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

This is secret...


Mimadas também sentem saudade.

Lá fora passa o tempo sem você


"Uma pessoa olhando para um celular que não toca - não há cena mais idiota. Os celulares foram justamente inventados para que ninguém precise mais ficar aguardando uma ligação ao lado do telefone." (Fernanda Young)

domingo, 26 de setembro de 2010

Nosso amor é lindo?

Coração apertado e lágrimas que custam a sair. É assim que me sinto desde que cheguei em casa ontem. Estava precisando mesmo ouvir um reggae pra limpar a alma, e fui. Qual a primeira coisa que vejo? Você, com aquela camisa que sempre usava nas quintas à tarde, quando podíamos ir sem farda pra escola, ou quando a gente se encontrava na praça, etc. E, claro, fumando. Eu corri pros seus braços, pro abraço, tentando ser tragada como seu cigarro, mas sem ser jogada pra fora como fui sempre.



Poucos minutos depois, olhei pra trás. Você já tinha saído. Durante o show, saiu e chegou várias vezes. Quando queria, falava alguma coisa. Igual no dia-a-dia desses três anos: 2008, 2009 e 2010. Você ia, e me deixava bem mais mulher. E eu dançava tão bem que nem precisava beber. Mas, quando você chegava, era como se eu tivesse que parar para ficar olhando. Sendo mais sincera, contemplando cada pedaço de você que eu nunca tive.


Tenho pensado bastante sobre nós e o que eu, de fato, sinto por você. Eu amei em segredo, me declarei, escrevi cartas, adaptei um livro, ouvi Engenheiros do Hawaii e fiquei com outros caras para conseguir te esquecer. Quando penso que não, choro três horas seguidas lembrando tudo. Depois, escrevi mais textos e fiquei ansiosa pra te reencontrar. Às vezes penso que criei em você o personagem principal dos meus textos, e, logo, a desculpa ou justificativa para que nenhum relacionamento futuro dê certo: “não deu certo porque eu gosto é dele”. Ou, ainda, o orgulho melancólico de bater no peito e dizer: “eu vivi uma história de amor triste, mas bonita, e ela me rendeu muitas cachaças poéticas”, onde cabe perfeitamente aquela frase de Caio Fernando Abreu: “não, meu bem, não adianta. Lá vem o amor nos dilacerar de novo”.


Entretanto, não estou disposta a viver eternamente acorrentada no seu calcanhar. Até porque nada me acorrenta, muito menos um “amor nazi-fascista: você se esconde e eu sigo sua pista” (Engenheiros do Hawaii).



Outro futuro se aproxima. Depois de muito tentar, de muito errar e acertar, um novo amor brotará entre os girassóis. Para esse futuro, meu bem, já estou de malas prontas. Beijos.


"Amor de verdade liberta. Vício é jaula." (Martha Medeiros)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Por entre girassóis

Quem escreve sabe. Não se escreve por escrever, pelo menos eu não o faço. Mas se isso ocorre, quando ocorre, raramente encontra-se coração nesses versos ou linhas. Para mim, a poesia quer brotar dos poetas, como as flores do campo. Escrevendo posso contar tudo sobre tudo, e sendo assim, quando falo de mim, me sentir aliviada ou exausta. Às vezes posso conversar horas com minha melhor amiga e independente dela entender ou não, preciso passar aquilo pro papel para ME compreender – aí está o alívio. Nesse sentido, posso ficar tanto tempo escrevendo pra tentar me entender e, mesmo depois do ponto final, sair dali me entendendo muito menos – aí está a exaustão.

Todos nós temos problemas, só que na maioria das vezes não sabemos enfrentá-los da forma correta. Ou simplesmente queremos sair da rotina, do caos das cidades grandes, enfim... E fugimos! Alguns vão às compras, outros viajam para qualquer lugar, tudo para esquecer os problemas. Comigo isso também acontece, mas prefiro dizer que me teletransporto. Geralmente é para um campo de girassóis.


Lá eu encontro o amor pelo qual procuro e para quem destino várias entrelinhas dos meus textos. Quando penso que não, lá está ele, que já me espera há um tempo. Ele me diz que sou sua musa, personagem das histórias que viveu e viverá, que escreveu e escreverá... Diz também que só sou sua musa sendo quem realmente sou, dançando côco de roda com as minhas sandálias de couro e meu vestido azul da cor de maravilha nua.


Um pouco à frente do campo, há um rio onde nos banhamos. Você penteia meus cabelos para em seguida se perder entre eles. Já posso sentir seu toque. Bem devagar. Junto de beijos quentes. E quando a noite vem, traz consigo a poesia. Essa por sua vez, chega sem nenhuma dificuldade. Deitados lado a lado, conto para as estrelas nossa história e o que talvez esteja por vir. O buquê que você me deu está no meu colo. Pego, então, alguns girassóis e escrevo nas pétalas os belos dias que vivemos juntos. E, por fim, como se fossem lençóis, vamos nos cobrir com elas para que “seja eterno enquanto dure”.

“... Então de todo amor não terminado

Seremos pagos em inumeráveis noites de estrelas.” (Maiakovski)