domingo, 31 de outubro de 2010

Cartas que eu não mando - I


Patos, 31 de outubro de 2010.

Oi, meu bem. Como vai esse menino de sorriso gigante? Quantas saudades suas, viu rapaz?! Te escrevo hoje pra te contar algumas coisas, dar boas risadas, relembrar o que vivemos, enfim. Escrevo pra você. Estou em Patos desde sexta, sabe? Aqui tá tudo tão parado... Quer dizer, as ruas estão cheias de gente e música alta, mas nada que me interesse ao ponto de sair de casa. Até que ontem eu saí... Fui reencontrar os meninos no Coreto. No caminho de lá, passei de frente ao seu apartamento. Sua mãe estava lá, linda como sempre, rodeada de amigos na varanda do seu quarto. Me deu mais saudades ainda, acredita?

De repente eu lembrei de quando nossas aulas acabavam mais cedo e ficávamos na sua casa, você conversando com os outros e eu rindo do que tem colado na sua porta. De quando a gente tentava estudar... Nossa! E você tentando me ensinar o pouco que sabia de física? Só tendo muita coragem mesmo... Ah, mas e no dia que a gente foi assistir o Exorcista? Coitada de mim que acreditei que você não me daria um susto. E coitada mesmo, porque eu quase morria! Você, sempre sem graça e idiota, me arrancando sorrisos sem nenhum esforço. Pois é, meu bem, a saudade é inevitável. E as lembranças me servem pra diminuir a distância que há entre nós, física e sentimental. Servem também pra que eu torne a imaginar um novo desfecho para essa nossa história sem fim se, de repente, ambos tivessem errado menos...

(Meu bem, é impossível te escrever sem falar em Engenheiros do Hawaii, né? Mas é que é algo mágico, entende? É como se eu pudesse me teletransportar pro nosso passado... Negar o meu amor por você, negar nossa história, negar tudo... até o que não vivemos. Às vezes me imagino cantando nossas músicas pra você... Quem sabe você não começasse a cantar igual aquela pausa, ano passado, enquanto fazíamos as tarefas atrasadas?)

22:30. Meu pai me ligou dizendo pra eu ir pra casa. Mesmo assim, não resisti e fui no seu prédio. Chamei no interfone e nada, talvez sua mãe não tenha ouvido ou o aparelho esteja com problema. Já prestes a ir embora, o porteiro chegou e antes que eu perguntasse algo, disse: "Ele não está aí.", sugerindo gentilmente que eu me retirasse dali. Não sabe ele que só queria contar uma coisa: vou voltar a escrever seu livro, aquele que conta nossa história, o Aritmética II que possivelmente mudará de nome.

Pra você, o de sempre: beijos e saudades que andam de mãos dadas.

Carinhosamente,

Bianca Dantas.

sábado, 30 de outubro de 2010

De João Pessoa maravilha pra mim!

Quinta-feira foi um ótimo dia. Em João Pessoa reencontrei bons amigos, alguns de longa data e outros de uma menor, mas que são de sorrisos e luta, assim como eu. E, só por serem assim, já são especiais. Foi um bom dia também para fotografar. Mas o melhor mesmo foi poder firmado o meu compromisso na luta pelo socialismo. Porque, como já disse, só assim eu sou. Agora, em seguida, poesia de Thiago de Mello com uma das fotos minhas tiradas na UFPB.

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

E você, tem fome de quê?

A fome sempre foi um assunto de interesse de todos, desde os governantes até a sociedade civil. Por isso, a proposta de sua erradicação se faz presente na maioria dos guias eleitorais, tendo o programa Bolsa Família como centro das atenções.

Entretanto, há uma questão bem maior por trás disso tudo: será mesmo só alimentícia a fome que a população tem? A educação, o lazer e a cultura, onde ficam? De fato, vivemos numa sociedade que embrutece as pessoas, impondo-as a cultura de massa onde, por exemplo, as músicas vulgarizam a mulher e incentivam o machismo e o uso de drogas lícitas. As novelas também não fogem de tal padrão, porque além disso mostram uma realidade que não condiz com a vivida por quem mora numa periferia.

É diante desse cenário que o povo vê negado seu direito garantido na Constituição de acesso à cultura. Por outro lado, podemos perceber que, mesmo sem incentivo governamental, várias artistas, em especial na região Nordeste, não desistem e continuam a produzir. São cordéis, grupos de teatro e dança, cinema, etc, criados principalmente para libertar o povo da alienação a qual é submetido. E você, tem fome de quê?


Bianca Dantas é estudante de Comunicação Social - UEPB.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre o amor

Quem não compreende o silêncio ainda não está pronto para ser flor.


Rita Apoena

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sobre os poetas


O mágico nunca conta os seus segredos.
O poeta nunca explica uma entrelinha.

Rita Apoena

Sobre o arrepio

O arrepio é quando,
por serem tão leves,
seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros:
soerguer uma flor.


Rita Apoena

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Aos que não nos exergam

Oi, eu estou bem aqui na sua frente, mas você insiste em não me ver. Tudo bem, opção sua, cada um enxerga o que quer. O problema é quando você, sem ter idéia de como sou, resolve dar a sua visão sobre mim. Talvez você não se enxergue também, antes de mais nada – e assim me tire por parecida contigo. Errando completamente. Para começar, eu faço questão de ver as pessoas ao meu redor, e isso faz toda a diferença do mundo. Percebo que todos têm algo de especial, estando aí a graça. Percebo belezas que não são minhas, estando aí o prazer.

Percebo inclusive você, parado bem na minha frente, desviando seu olhar para lá e para cá, nervoso com a minha presença, estando aí o ridículo.

Veja bem, não há o que temer em mim. Não quero nada que seja seu. E não sou nada que você também não seja, pelo menos um pouquinho.

Você não precisa gostar de mim para me enxergar, mas precisa me enxergar para não gostar de mim. Ou gostar, e talvez seja exatamente isso que você tema. Embora isso não faça sentido, já que a vida é bela, justamente, quando estamos diante daquilo que gostamos, certo?

Não vou dizer que não me irrita essa sua cegueira específica com relação a mim, pois faço de tudo para ser entendida. Por todos. Sempre esforço-me ao máximo para que isso ocorra, aliás; então, a sua total ignorância a meu respeito, após todo esse tempo, nós dois tão perto, mexe, sim, levemente, com a minha paciência.

Se for essa a sua intenção, porém, mexer com a minha paciência, aviso que anda perdendo sua energia em besteira, pois um mosquito zumbindo em meu ouvido tem um efeito semelhante. E, se me dou ao trabalho de escrever esta carta para você, é porque sei que você também não será capaz de enxergar o que há nela.

Explicando melhor: preferiria que você me esquecesse, mas até para poder esquecer você vai ter que me enxergar. Enquanto não me olhar de frente, ao menos uma vez, ao menos por um segundo, vai continuar assim, para sempre, fugindo sistematicamente da minha imagem – um escravo de mim, em fuga constante, portanto.

Pode abrir os olhos, vai ver que não sou um bicho-de-sete-cabeças. Sou bem diferente de você, como já disse, mas isso é ótimo. Sou melhor que você em algumas coisas, pior que você em outras – acontece. No que eu for pior, pode virar para outro lado; no que eu for melhor, cogite me admirar. “Olhos nos olhos, quero ver o que você faz...”* Sempre quis cantar isso para alguém. “Olhos nos olhos, quero ver o que você diz...”*

Pronto, um sonho realizado. Já estou lucrando com a nossa relação, só falta você. Basta ver o que eu posso lhe mostrar e enxergar o que eu posso ser para você.




* Trechos da música OLHOS NOS OLHOS, de Chico Buarque.

Fernanda Young