quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Pequena releitura do filme Casa de Areia


Áurea sempre foi muito sozinha, apesar de ter uma família consideravelmente grande. Ela sabia que o mundo é uma multidão. De cores, raças, culturas e personalidades. Entretanto, depois de perder alguém importante, tudo ficou vazio. O mundo continuava sendo multidão, mas, para ela, isso não fazia sentido. Antes, quando andava pelas ruas, as pessoas esbarravam nela, e, às vezes, até pisava em chicletes. Depois, ao caminhar, o máximo que ela sentia era uma brisa leve tocando seus ombros. E o asfalto? Ah, esse tinha se transformado em nada mais que milhões de grãos de areia.

Foram dois anos vivendo num mundo cinza, só dela e de suas lembranças e fantasmas. Áurea, no entanto, queria um mundo cheio de vida de novo. Em busca de cores, resolveu procurar as pessoas, aquelas que faziam a multidão há dois anos. Afinal, ela sabia que não era a última dos seres humanos. Até porque, se fosse, os ET's já estariam disputando-a para usá-la como cobaia de experiências.

Eis que, de repente, algo muda. Áurea volta a ver as pessoas. Melhor: ela não só vê, como passa a sentir a dor delas quando os outros esbarram nas mesmas. Céus!, como aquilo era doloroso e gratificante... Quase como uma obrigação, um dever. E, na areia, ela voltou a deixar pegadas com seus passos. Já os grãos, quase sem cor, agora tinham as cores do futuro: vermelho e amarelo.

De volta às ruas, Áurea conheceu boas pessoas. Dentre elas, está Massu: poeta, escritor e pintor que utiliza as cores do futuro em suas obras. Para que ela chegue onde ele mora, tem que andar um bom pedaço de terra. No meio do caminho não tinha uma pedra, tinha um baú entreaberto. Curiosa, Áurea observa o tesouro encontrado. Eram escritos de Massu, e ela, por estar aprendendo a ser discreta, não diz a ele que achou. Ela não diz que achou, muito menos que leu... E leu ferozmente.

Áurea, em vez de ir para a casa de Massu, volta para o seu apartamento. Radiante, junta todos os papéis antigos, escreve textos novos, organiza-os e pronto: agora ela também tem um tesouro. A vontade dela é correr para os braços de Massu, levando consigo o tesouro que ela construiu, estando ele, assim, em várias dessas entrelinhas. Áurea queria mesmo era escrever sobre todo esse mistério que é Massu e o que sente por ele, mas tem medo que ele se encontre nos seus textos, assim como ela, às vezes, se acha presente em toda aquela poesia efêmera e nostálgica.

Áurea é, acima de tudo, uma sonhadora. Mas ela tem aprendido a sonhar de acordo com a realidade. Só que a realidade diz diariamente que ela não é bonita o suficiente para ser uma das musas de Massu, além de ser infantil e dramática. Áurea tem dois desejos: ver Massu dormindo e, quando do seu acordar, beijá-lo até que sinta o mel que ele aparenta guardar na boca. Diante de tal real impossibilidade, ela vai até a metade do caminho e pára. Abre seu tesouro, retira todos os seus textos e, antes que quisesse esvaziar por completo o baú, deixa o seguinte bilhete torcendo para que Massu encontre qualquer dia:

"Você é bem mais bonito do que eu lembrava."

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