sexta-feira, 24 de junho de 2011

Porque era noite de São João

"Olha pro céu, meu amor. Vê como ele está lindo! Olha praquele balão multicor, como no céu vai sumindo..."


Hoje seria um dia daqueles em que você acorda cedo porque quer, não porque precisa. E ainda ri do fato. Hoje seria o dia de afastarmos os sofás pros cantos, que é pra sobrar mais espaço pra dançar na sala. Dia de desempoeirar tanto a vitrola quanto os discos, que é pra Luiz Gonzaga poder cantar sem engasgar, certo? O almoço ficaria por conta da minha mãe. Mas minha avó de vez em quando daria uma carreira na cozinha pra ver em que estado a comida estava. Que tal mungunzá com charque? Bianquinha adorava!


Tudo encaminhado, minha vó voltaria pra sala e trataria logo de arrastar o chinelo com meu avô, e mesmo que acabassem cochilando, não parariam de dançar. Hoje era dia de Bianquinha calçar as sandálias da mãe, mesmo que fossem modelos diferentes, passar um batom vermelho, mesmo que ficasse borrado, e colocasse o chapéu de palha do seu avô, aquele que ele usava pra se proteger do sol quando ia ao mercado. E para seu par, acabava por sobrar somente o gatinho Mimi, o gigante amarelo.


Assim o dia corria inteiro, com pequenas pausas para comer um milho cozido ou canjica com canela, até entrar a noitinha. E Luiz Gonzaga lá tocando, voínha só trocava os discos. O jantar poderia ser cuzcuz com leite e carne de sol, porque tinha que ser algo que Bianquinha gostasse. Terminado o jantar, eu correria para a calçada com meu irmão para soltar os fogos, já que era um dos poucos momentos em que ficávamos juntos sem brigar por muito tempo. Poderíamos começar  pelos chumbinhos ou as chuvinhas. Depois, talvez, ele conseguisse me encorajar a soltar um traque...

Poderia, quem sabe, até pular elástico hoje (já que eu era imbatível no bairro), mas o que eu queria mesmo era pular a fogueira, igual meu irmão fazia. Mas como minha vó ficava me pastorando do portão, o que restava era pular as brasas...


Então minha vó diria a frase mais temida da noite: "Vamos brincar de brasa? Cada cá nas suas casa!". Eu, obediente, passaria logo pra dentro. Mas antes de entrar, olharia uma última vez pro céu. O São João pedia uma estrela cadente, e lá estava ela, passando bem no correr dos meus olhinhos de criança que só pediriam uma coisa naquela noite: que ela não acabasse.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pesos, sensações e medidas

Me sinto leve como a brisa. Ao mesmo tempo, pesada como a primeira carga que se dá no celular recém comprado. E efêmera como o níquel ao se dissolver na água.

Me sinto incompleta, carta fora do baralho, caneta que falha, música que não toca mais. Nasço e morro dia após dia. O sol me chama pra sair e a lua pra eu refletir. O sol me põe em movimento, a lua me recolhe. Nasço e morro todos os dias apartir de sentimentos que me brotam ao coração como algo natural. Sou um aglomerado de sensações. Um vulcão prestes a entrar em erupção. Um copo que esborrota a gota d'água.


Já me renovei em braços, me afoguei em beijos, me perdi em corpos e naveguei em olhares. Mas não adiantou. Algo ainda me falta. Sou como um brinquedo pra montar. No entanto, as outras peças não se encaixam. Nenhuma sequer, nenhuma pra contar a história.


Hoje eu não pegaria ônibus nem filas. Dormiria um pouco mais, dançaria com as palavras, abraçaria mais as pessoas e plantaria flores em seus corações, cuidaria de uma criança, alimentaria um faminto, adotaria um cão sem dono, me renovaria nos seus braços, me afogaria nos seus beijos, navegaria em seus olhos, me perderia em seu corpo, faria seu café, desenharia sua barba me causando arrepios desejáveis, vestiria meu vestido mais bonito, tatuaria uma borboleta, acenderia uma vela e cantaria Um girassol da cor de seu cabelo. Mas falta você em mim. E muito pra mim é tão pouco, e pouco eu não quero mais.