sexta-feira, 4 de maio de 2012



Parem!
Parem o mundo, as mortes,
o tempo, os desencontros!
É nesse peito negro que quero deitar!
É nesse leito que quero dormir!

É esse homem que quero amar!
É com ele que quero dançar. viajar...
É sem ele que não posso ficar!
Então é com ele que quero combinar:

Te dou meu coração
pra você banhar na beira do rio
Vai! E lava, e tira o que mancha ele de cinza
Pra colorir com as cores dos teus beijos

Parem!
Parem o mundo, as mortes,
o tempo, os desencontros!
Me leva no caminho desse amor
que quer passar.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

A beleza do amor que não é dor

Qual a cor do amor? Qual a cor da dor? Qual a cor do amor que não é dor? Como cantar ou escrever o que não se entende, só se sente?

Tudo mais nasce do que morre. Em alguns casos, nasse tudo ao contrário. Mas aqui, agora, falo de algo que precisou de um tempo pra saber como nascer, apesar de ninguém saber como nasceu. É quase como uma planta. Requer cuidados. Precisa de sol, de vento no rosto.

Falo de algo que engrandece, que transborda o peito. Falo de algo que não precisa ser dito pra ser concreto, mas de entrega e alegria. De algo que não dá espaço pras lágrimas.

Falo de ser livre. De ter a liberdade de escolher estar em qualquer lugar com qualquer pessoa, e, mesmo assim, saber com quem você irá ao cinema, com quem vai dormir de noite, com quem vai transar no final de tarde.

Falo de estar onde eu queria. De ser conquistada todo dia. Trocamos a posse pelos beijos, o abandono pelos abraços e a dor pelos sorrisos. Falo da beleza do amor que não é dor.


Poema pra cantar o desejo

Basta um abraço para o arrepio.
Um decote,
um zíper aberto,
a nuca molhada do banho.
Tudo é motivo
pra sentir desejo.

O beijo eterno,
o sexo, o calor,
o peito que abriga
nas noites sem fim.
Tudo é motivo pra sentir desejo.

A mão que passeia pelo corpo
quer que as roupas sumam
e provoca,
pra o olhar dizer
que amor é pouco
pra tanto desejo.


quarta-feira, 21 de março de 2012

O que é cinema?



Final do século XIX. A Revolução Industrial se expande pelo mundo afora, e a burguesia cria um universo cultural como forma de acelerar seu processo de dominação. É no contexto da busca pela captura do movimento que o cinema surge. Mas defini-lo é que é difícil. Talvez até perigoso e autoritário.

Na verdade, toda arte é complicada de se definir porque ela não existe em si, mas precisa ser criada e, assim, leva consigo um mundo de significações. É certo que existe uma intertextualidade, um diálogo entre as artes. O cinema, por sua vez, dentre as sete, é a mais completa porque contém todas as outras.

           Nesse sentido, como podemos dizer se um filme é bom ou ruim? Que critérios se usam? Quem define isso? Quem se “atreve” a tentar explicar a emoção, a magia do cinema? O fato é que, quando dei por mim, o cinema já fazia parte da minha vida há muito tempo, e já perdi a conta de quantas vezes quis ser o personagem de um filme. Ter me escondido no telhado com Chava e seus amigos, para fugir do recrutamento da guerra civil de El Salvador, em Vozes Inocentes; ter a capacidade de transformar o terror de um campo de concentração em um jogo divertido, como fez Guido em A Vida é Bela; ter brincado com O Menino do Pijama Listrado; ser o jornalista de A Caçada, etc. Não são poucos os exemplos. Na lembrança mais bonita que guardo da minha infância o cinema está lá. O primeiro filme que lembro ter visto foi Cinema Paradiso, com meu pai e meu irmão. Logo o filme que conta a história do amor pelo cinema.
            Um pouco como num sonho: o que a gente vê e faz num sonho não é real, mas isso só sabemos depois, quando acordamos. Enquanto dura o sonho, pensamos que é verdade. Essa ilusão de verdade, que se chama impressão de realidade, foi provavelmente a base do grande sucesso do cinema. O cinema dá a impressão de que é a própria vida que vemos na tela, brigas verdadeiras, amores verdadeiros." (BERNADET, Jean-Claude. O que é cinema. São Paulo: Brasiliense, 1985.)

            Deve ser tão difícil definir o cinema porque ele tem uma característica em comum com os sentimentos: quanto mais se vive (ou faz), menos se entende. Ao mesmo tempo, corajosos são os que insistem.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Parabéns, Mafalda!


Hoje a Mafalda completa 50 anos e essa data não poderia passar em branco. Engraçado que quando eu era criança, achava a Penélope Charmosa fútil demais. Não nego que quis ser a Power Ranger rosa, mas não tenho o menor interesse em ser meiga e saber lutar. Já a Barbie, embora elegante e com um namorado lindo, nunca me completou realmente. Mas a Mafalda... Ah, a Mafalda!

Ela odeia sopa, ama os Beatles e sempre esteve a frente do seu tempo. Reflete sobre o sentido da vida, é irônica e quer mais do que simplesmente casar e ter filhos. Quando crescer, a Malfada quer ter muita cultura. E assim sou eu. Só posso sentir pena pelas pessoas que me perguntam se a tatuagem que tenho dela na perna esquerda é a Luluzinha.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Poema pra cantar a saudade


Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
coloriu minhas noites.
Estrelas surgiram no céu
e a solidão noturna
já não dói na minha pele.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me deixou pura.
Não quero o mal de ninguém
e só vejo o que é bonito.
Ele me fez sua branquinha.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me deixou doida.
Doida eu e doido ele,
sozinhos e nus, fazemos
qualquer lugar pegar fogo.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me deixou sozinha.
Choro sua ausência,
venero sua presença
e espero.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me faz sentir sua falta.
A dor é tanta, e ele sabe,
que eu tive que escrever um
poema pra cantar a saudade.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
não me deixa desistir.
Insisto e persisto.
Porque ele é
o que tenho de mais bonito.

Como disse o poeta,
é a coisa mais linda que eu já vi passar.

Eu tenho um pretinho que,
de tão preto,
me ensinou que o amor não tem cor.

sábado, 10 de março de 2012

Ofício


Em breve voltarei a escrever aqui. Na verdade, não sei mais se aqui é mesmo um bom lugar. Talvez eu volte a escrever numa agenda, na que eu comprei pra faculdade, porque assim vou carregá-la pra qualquer lugar e ela vai ter a mínima característica de um diário (como os que eu escrevia quando criança): ela será secreta.

Mas o "em breve" que eu digo é um pouco indeterminado. Porque antes de escrever preciso entender o que se passa comigo, entender toda essa tormenta que se instalou em mim uns meses atrás. Quando eu conseguir administrar tudo o que escrevi em pensamento, nas minhas observações dentro do ônibus, a caminho do supermercado... Aí sim, vou poder me entregar novamente às dores e delícias do ofício.

Quantas vezes eu assassinei o amor?

Quantas vezes eu assassinei o amor?



O amor nunca morre de morte natural. Anaïs Nïn estava certa. Morre porque o matamos ou o deixamos morrer. Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença. Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia. Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.


O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos. Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento. O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida. O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.

Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos. No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.


Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria. Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas. Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.

O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.


O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.

- Fabrício Carpinejar

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Saudade


Saudade de quando você ainda era assim, pequenininha, e eu podia te embalar... Lembro que você sempre foi abusadinha: fora seus pais, só ficava se fosse comigo. Todo mundo ficava feito bobo, esperando os seus primeiros passos, as suas primeiras palavras... Hoje você tá rebelde, não quer mais falar comigo no telefone e me troca pelos meninos da sua rua, só porque eles tem sua idade né? Confesse!

Hoje você só dorme se for com sua mãe, que é pra o "Sucupira" não vir te buscar. Mas e EU? Será possível que eu não posso te proteger de um reles anão que tem os pés virados pra trás?

Mesmo assim, eu me lembro como chorei quando você disse "titia" a primeira vez...